Metafísica

Falta metafísica à literatura brasileira contemporânea.

Faltam romances de ideias.

Estas foram duas das questões levantadas ontem em conversa coletiva online com o escritor Antônio Xerxenesky, por conta de seus romances As Perguntas e (especialmente) Uma Tristeza Infinita.

Falávamos da importância de uma literatura nacional escapar, por vezes, rumo a outras geografias, tempos e preocupações que não os do realismo fincado no contemporâneo. É preciso não se castrar, limitar e prender ao aqui, ao agora, ao imanente. Mais transcendência, mais espírito desafiador, menos matéria, ou mais matéria em sua relação com aquilo que não é matéria.

Bem, há décadas a metafísica está ausente (com relevância) de nossa literatura. O realismo engoliu tudo, mastigou, cuspiu fora, engoliu novamente e aqui estamos. É preciso sair um tantinho que seja do aqui, do palpável, do dia de hoje, das ruas de sempre. Do próprio umbigo.

Porque o próprio umbigo pode ser interessante por algum tempo, e isto se você for muitíssimo talentoso. Talvez passemos por um longo surto de muitíssimos talentos em nossa literatura, enchendo nossas estantes de novos Flaubert.

Só que não, né? Eu, ao menos, penso que não.

Até pensei em criar um parágrafo satirizando alguns parágrafos que venho lendo, mas me pareceu provocação desnecessária. Mesmo porque não discordo que algumas vozes literárias possuem a necessidade de expressar as próprias vidas, e tudo bem, vai lá, não proponho que amordacemos ninguém. Eu só desejo mais e além.

Por isto ler autores como Alexandre Soares Silva, Alberto Mussa e Antônio Xerxenesky areja, expande, abre. Saem daqui, deste tempo, da bendita realidade, e tome realidade, e vamos de realidade, vamos encher o papel de Brasil, das atualidades brasileiras, dos imensos problemas brasileiros. E haja saco para tanta REALIDADE. Sofrência é isto.

É preciso mais nonsense, mais absurdo, mais transcendência, mais das coisas ocultas ou da tal realidade sutil, mais alma e menos corpo (vez em quando, compreendem?).

Como é satisfatório e prazeroso ler autores que se alienam de nosso cenário político-social mais mesquinho, hein? Quanta belezura na distância dessas bobagens, desse peso, dessa carga ruim.

Acho mesmo que falta imaginação, desejo, ambição e, vamos lá: talento?

Talento para sair do diário, da confissão do cotidiano, da acusação de si e dos outros.

Dos escritores supracitados, por exemplo, livros como O Homem que Lia os Seus Próprios Pensamentos, Totolino, A Coisa Não-Deus, os já mencionados As Perguntas e Uma Tristeza Infinita, A Primeira História do Mundo e A Biblioteca Elementar levam o leitor a outras paisagens físicas e mentais, e pergunto se assim não estariam falando mais do que somos.

Falta metafísica à literatura brasileira contemporânea.

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