Felizes aqueles que voam

A Âyiné merece ser mais conhecida, pois faz um trabalho belíssimo com obras e/ou autores que não receberam acolhida em nosso mercado editorial, além de editar livros de escritores consagrados que não encontramos rodando nos catálogos nacionais. E tudo se destaca bastante pelo cuidado estético – seu apuro na área é notável.

E hoje escolhemos falar de um livrinho – livrinho por suas dimensões, apenas – que traz uma das marcas da editora: publicar relatos tensos, eletrizantes e terríveis de tragédias humanitárias. Aqui, em Notas Para um Naufrágio, temos o horror das histórias de refugiados os mais diversos, que partem da África e da Ásia buscando um canto na Europa. Os relatos estão concentrados em Lampedusa, uma das ilhas Pelágias do sul da Itália, no mar Mediterrâneo, um dos alvos daqueles que sacodem ossos e carnes na busca desesperada de um lugar (qualquer lugar) que possa abrigá-los em sua fuga – da guerra, da perseguição étnica, da miséria.

Deste modo, a narrativa se concentra em duas dores, que são opostas e complementares: a dos que imploram socorro e a dos que procuram dá-lo, tantas vezes sem sucesso. O livro, escrito pelo ator, dramaturgo e escritor italiano Davide Enia, mistura a escrita documental e investigativa com a memória autobiográfica, registrando literariamente na história do mundo a desgraça ocorrida na ilha em 2013: o naufrágio de um barco com imigrantes da Eritreia, da Somália e de Gana, partindo da Líbia, que resultou em trezentos e cinquenta mortos. A versão dos moradores de Lampedusa, de mergulhadores, médicos, membros da Guarda Costeira italiana e sobreviventes, tudo aqui serve para que possamos dimensionar o desastre humano que nos é contado. Como é dito a certa altura, “os barcos não param de chegar”, pois que a Europa parece ser o ancoradouro mais seguro para suas longevas angústias.

Como tantos infernos de que ouvimos falar, este que é objeto do livro irrompe de maneira prosaica – e bestial:

“O naufrágio de 3 de outubro de 2013 ocorreu antes do amanhecer, a menos de meia milha da costa de Lampedusa, na altura da baía chamada Tabaccara. A dinâmica do afundamento foi impiedosamente simples: ao avistar terra firme, alguém, para fazer luz e assim marcar a posição da embarcação, pôs fogo em algo, talvez uma manta. Na barcaça havia diesel por toda parte. As chamas se expandiram logo pelo convés lotado. As pessoas recuaram instintivamente para não se queimar. O deslocamento imediato provocou um desequilíbrio implacável num arranjo já amplamente precário. O pesqueiro virou e em pouquíssimo tempo foi a pique. 

Entre o convés e a cabine havia mais de quinhentas pessoas.”

Tão longe, tão perto. Tão fina a linha entre alguma, qualquer liberdade e o fim de tudo, mesmo e ainda que seja do sofrimento atroz. E, em todos os anos posteriores a este terrível 2013, muitos outros barcos chegaram e não chegaram, numa procissão para a qual europeus se voltam ou voltam as costas, e nada terá fim até que tudo tenha seu fim.

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