Epístolas demoníacas

Cartas de um diabo a seu aprendiz é um clássico e interessantíssimo trabalho de C. S . Lewis, que dedicou bom tempo de sua escrita aos textos de apologética cristã. Sempre bem-humorado e fazendo ótimo uso de seu talento para a ficção, Lewis conseguia trazer o público para suas observações desde a perspectiva do cristianismo, sem com isto soar professoral, pentelho, aborrecido.

Aqui, o romancista imagina dicas e observações de um diabo pertencente ao alto escalão do Inferno, que aconselha e adverte seu sobrinho – um jovem aprendiz no campo das tentações – quanto aos procedimentos para a conquista da alma do humano que lhe cabe. Ele o faz por meio de cartas, nas quais encontramos as abordagens que recomenda e as avaliações que faz dos relatórios recebidos de seu pupilo. À medida que pequenos êxitos e fracassos lhe são apresentados, este diabo reorienta ações e cautelas, aconselhando avanços e recuos nos mais diversos campos de ação da vida humana. Gula, covardia, ressentimento, orgulho e correlatos devem ser apropriadamente estimulados, com o cuidado de que a vítima em questão não se aperceba da presença demoníaca, e que qualquer excesso não a desperte definitivamente para os riscos que está a correr.

A feliz tradução brasileira traz os nomes próprios Maldanado (para o diabo) e Vermelindo (para o aprendiz), bem como outros curiosos e engraçados que pagam tributo aos originais (outro bom exemplo é Remeleca, que identifica o diabo responsável pela academia de formação de tentadores). O leitor (creio eu), de início, talvez se sinta confuso com o tratamento dado a Deus – o Inimigo -, visto que costumeiramente esta seria a denominação dirigida às forças maléficas, mas que reforça a ideia de que todo o livro é estruturado a partir do ponto de vista infernal. Se a missão é arrebanhar almas para a fornalha e o restaurante das profundezas…

Vejamos o trecho seguinte, que bem expõe a linha de raciocínio que nos é trazida:

“A verdade é que eu, por puro descuido, cometi o deslize de dizer que o Inimigo ama os seres humanos de verdade. Isso, é claro, é algo impossível. Ele é um ser único, e eles são distintos dele. O bem deles não pode ser o dele. Toda a conversa  dele sobre o amor deve ser um disfarce para alguma outra coisa – Ele deve ter algum motivo real para tê-los criado e para aguentar o trabalho que eles dão. O motivo pelo qual acabamos falando como se ele tivesse realmente esse amor impossível é nosso fracasso absoluto em descobrir o verdadeiro motivo.”

O destaque acima procura deixar bem claro como funciona a cabeça de um diabo, incapaz de compreender o amor livre e verdadeiro, e que assim trata de escarafunchar os próprios miolos atrás de segundas intenções e planos não revelados. Nas cartas, somos apresentados a certa hierarquia nos domínios do Inferno, com seus escalões e departamentos, na tentativa incessante de melhor entender o que Deus pretende com aqueles serezinhos por Ele criados, e que tanto trabalho dão aos demônios na luta por suas almas.

A belíssima edição mais recente da obra, da Thomas Nelson Brasil, apresenta caprichado apuro estético e traz ainda “O Brinde”, texto em que o autor (muitos anos depois) revisita o personagem Maldanado, quando de seu discurso na cerimônia de formatura dos demônios que subirão à terra no encalço de suas possíveis presas. 

Deixo como encerramento sua fala final aos jovens e terríveis formandos, para que o leitor tenha melhor ideia do approach de Lewis:

“A fina flor do profano só pode crescer na vizinhança íntima do sagrado. Em nenhum lugar a nossa tentação é tão bem-sucedida quanto precisamente aos pés do altar. Vossa Iminência, vossas Malevolências, queridos Espinhentos, Sombrios e demais Gentis-demônios: ergamos nossas taças e brindemos ao Diretor Remeleca e à Academia!”

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